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Óleos essenciais e suas aplicações na saúde mental



Desde a década de 1950, a prescrição de psicofármacos tem crescido exponencialmente, sendo a terapêutica mais empregada para tratar quaisquer questões de ordem psicológica, embora outros tipos de intervenção, como a psicoterapia, também sejam eventualmente adotados (FERRAZA et al, 2010). Entretanto, devido aos riscos de dependência e às reações adversas ocasionadas pelo uso desses medicamentos, algumas pessoas têm recorrido a práticas complementares e integrativas de saúde como a Aromaterapia.

Em linhas gerais, a Aromaterapia pode ser definida como o estudo e uso terapêutico dos óleos essenciais (OEs) em níveis tanto físico quanto psicológico. Quando se refere à sua atuação na saúde mental, ela pode ser chamada de Aromaterapia Psicológica ou Psicoaromaterapia, termo cunhado por Robert Tisserand para descrever o uso de óleos essenciais na manutenção da saúde psicológica e no alívio e tratamento de psicopatologias (TISSERAND, 2014).

Uma das formas de se utilizar os óleos essenciais terapeuticamente é a partir da inalação, sendo esta a opção mais indicada para quando se quer tratar questões emocionais. Ao inalar um óleo essencial, as moléculas aromáticas nele presentes entram com facilidade pelas narinas, dissolvem-se no muco nasal e são capturadas pelo bulbo olfativo, passando por uma sequência de reações químicas que ativam imediatamente algumas áreas do sistema nervoso central, como o sistema límbico - grupo de estruturas nervosas responsáveis pelas emoções e memória (DE LYRA, 2009; KANDEL, 2014).

Além dessa ação direta no sistema nervoso, ainda por meio da inalação, com a ajuda dos pulmões, as moléculas aromáticas dos OEs são levadas à corrente sanguínea. Uma vez na corrente sanguínea, essas moléculas desencadearão diversas reações físicas e endócrinas no corpo, atuando em outros sistemas e órgãos até serem completamente metabolizadas e excretadas.

De modo geral, no sistema nervoso, os óleos essenciais possuem um mecanismo de ação que tende a estimular a produção de alguns neurotransmissores (NTs) e atuar em seus processos neurofisiológicos, além de conterem substâncias moleculares análogas a esses NTs. Como sugerem várias pesquisas realizadas nos últimos anos, os OEs podem atuar em diversas vias neurológicas, aliviando o estresse, a insônia, ansiedade, depressão, medo, fobia, transtorno bipolar e até sintomas psicóticos (PERRY; PERRY, 2006).

Uma pesquisa realizada em 2010 comparou a ação antidepressiva de óleos essenciais como o de camomila romana (Anthemis nobilis), salvia esclaréia (Salvia sclarea), alecrim (Rosmarinus officinalis) e lavanda (Lavandula angustifolia) em ratos, aplicados por injeção e inalação. De todos os óleos testados, o de sálvia esclareia teve o maior potencial antidepressivo identificado, por modular a recepção de dopamina no sistema nervoso central (SEOL et al, 2010).

Já em 2014, foi realizado o primeiro estudo sobre a ação antidepressiva do OE de sálvia esclareia em humanos, tendo como amostra vinte e duas mulheres em menopausa. Elas foram separadas em dois grupos: um de mulheres depressivas e outro de não depressivas. Após a inalação do óleo essencial, verificou-se que o grupo de mulheres depressivas teve redução dos sintomas, tendo em vista que os níveis de cortisol diminuíram significativamente, enquanto os níveis de serotonina aumentaram - tendo um aumento de mais de 800% em alguns casos (LEE et al, 2014).

Além da sálvia esclareia, outros óleos essenciais são amplamente utilizados pela Aromaterapia por seu potencial antidepressivo cientificamente comprovado, tais como o de bergamota (Citrus bergamia), rosas (Rosa damascena) e ylang-ylang (Cananga odorata).

Quanto à ação ansiolítica, anti-estresse e sedativa dos OEs, estudos sugerem que óleos essenciais ricos nas moléculas aromáticas d-limoneno, citral e linalol têm grande potencial calmante e ansiolítico, como é o caso da laranja doce (Citrus sinensis, Citrus aurantium dulcis), da mandarina (Citrus deliciosa), do capim limão (Cymbopogon citratus) e da lavanda francesa (CHIOCA et al, 2013; COSTA, 2011; PERRY; PERRY, 2006).

A lavanda (Lavandula angustifolia, Lavandula officinalis) atuaria, ainda, reduzindo sintomas psicóticos (CUNHA, 2015), sendo utilizada via inalação e tendo mecanismo de ação semelhante à maioria dos antipsicóticos. Outros estudos sugerem que a aplicação de massagens aromaterapêuticas em pacientes esquizofrênicos também teria efeitos importantes na diminuição dos sintomas psicóticos (PERRY; PERRY, 2006).

As pesquisas envolvendo a ação psicoterapêutica dos óleos essenciais são bastantes promissoras, tendo em vista que, quando comparados com os psicofármacos convencionais, os OEs não possuem efeitos adversos e se apresentam como alternativas menos invasivas - e, em alguns casos, até mais efetivas para a manutenção da saúde mental.

Contudo, vale ressaltar que, principalmente nesses casos, os óleos essenciais devem ser utilizados com cautela e preferencialmente sob orientação e acompanhamento de profissional capacitada (o). Outro ponto a se destacar é que a Aromaterapia não deve ser utilizada como única intervenção terapêutica para psicopatologias, devendo-se realizar concomitantemente o devido acompanhamento psicológico.


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